Србија
Um frio percorreu minha espinha quando olhei pela janela do avião que
pousava em Belgrado no dia 6 de fevereiro de 2012: o branco da neve
cobria tudo, apenas a pista do aeroporto dava uma cor diferente ao
cenário. Chegar sozinha à capital da Sérvia em um dos dias mais frios
do ano (e dos últimos anos), sem saber o que esperar daquele lugar e
daquelas seis semanas que viriam pela frente foi certamente uma das
sensações mais impactantes da minha vida.
Logo ao desembarcar, um conforto para o meu coração angustiado:
recepção calorosa, com direito a bandeirinhas com meu nome! Ao
conhecer as pessoas que tinham ido me buscar, percebi com grande
alegria que os sérvios podiam ser muito mais parecidos conosco do que
eu jamais havia imaginado! Pessoas abertas, falantes, alto-astral,
compreensivas com atrasos, animadas e prestativas.
Fui levada para o apartamento que dividiria com outros intercambistas
onde, já no primeiro dia conheci uma menina polonesa que dividiu o
quarto comigo durante todo o tempo e se tornou um super companheira e
amiga com quem mantenho contato. Ao longo das semanas, outras pessoas
chegavam e iam embora, mas sempre estávamos em 4 ou 5, então a
diversidade cultural era mantida o tempo todo; posso dizer que morar
com esses outros estudantes foi uma das melhores coisas da viagem,
pois conheci várias culturas além da sérvia e fiz amigos de muitos
lugares.
Nas duas primeiras semanas pude ver muito pouco da cidade, pois a neve
cobria tudo e dificultava qualquer passeio. Escolas e faculdades
fecharam, o que também adiou o início do projeto. Quando decidi que
queria viajar (em dezembro) não tinha muita idéia do destino e nem de
que tipo de trabalho gostaria de fazer. Só sabia que queria muito
conhecer pessoas/lugares/culturas novas e fazer isso da melhor forma,
contribuindo de alguma maneira, fazendo alguma diferença, por menor
que fosse. Minha busca pela vaga tinha que ser rápida porque queria
embarcar logo para não perder muita aula depois, na volta. Então,
quando encontrei um projeto sobre sustentabilidade e ecologia, área
que sempre me interessou e na qual eu via grande potencial, em
Belgrado, cidade que transborda história - estudo Relações
Internacionais e nem preciso dizer o quanto isso me atrai - pensei: é
esse e vou arrumar minhas malas! Malas prontas e tudo arrumado
(incluindo visto! Quem pretende ir deve fazer isso com antecedência
pra não surtar como eu) com muita correria, em menos de duas semanas,
e lá estava eu.
Quando a neve finalmente deu uma trégua, comecei a conhecer Belgrado.
O lugar que mais me encantou foi Kalamegdan, um enorme parque cercado
pela fortaleza construída há mais de mil anos, onde tem também um zoo
muito bonitinho que vale a pena ser visto. A catedral de Saint Sava é
uma construção mais moderna, de poucos anos atrás, mas é parada
obrigatória. Seu interior ainda está em construção, mas a arquitetura
imponente encanta a todos. Belgrado é uma cidade que ainda está em
desenvolvimento, longe do padrão europeu que conhecemos, mas com
transporte público eficiente e segurança (pegava ônibus com muita
tranquilidade para voltar das festas). Por falar em festas, é a cidade
ideal pra quem gosta da vida noturna, há opções para todos os gostos e
clubes muito charmosos em barcos às margens dos rios Sava e Danúbio,
além de não precisar pagar entrada na maioria deles.
Quanto à comida, não tive nenhuma dificuldade para me adaptar pois
eles não comem nada que seja muito excêntrico para nós, e achei tudo
muito delicioso. As padarias merecem destaque, pois são ótimas e muito
baratas! Quem for não pode deixar de experimentar o Burek, uma espécie
de pastel geralmente recheado com carne ou queijo e de sabor
excelente! Outra coisa que não pode passar batida é a Rakija, bebida
típica da Sérvia e outros países balcânicos. Pode ser feita a partir
de várias frutas, como uva, maçã, pera, entre outras tantas, e até de
nozes, mas o gosto é sempre bem forte (e o teor alcoólico bem alto!).
Na sessão dos não-alcoólicos, o Plazma shake é uma ótima opção.
O povo, como já disse aí em cima, tem um jeito que pode lembrar muito
o brasileiro. Em geral as pessoas são bem informais e sempre que
precisei obtive ajuda prontamente. Uma coisa que me chamou a atenção
foi o orgulho com que falam de sua cultura e cantam e dançam suas
canções tradicionais sem vergonha alguma em restaurantes e pubs. Para
meu alívio e surpresa, muita gente (mesmo) fala inglês, especialmente
os jovens, quase todos com quem tentei me comunicar! E isso é
fundamental porque a língua sérvia é da "família" do russo, ou seja,
incompreensível. Além disso, eles usam dois tipos de alfabeto, o
cirílico e o russo, o que dificulta muito pra quem aprende a
identificar uma palavra num alfabeto e aí ve ela escrita no outro -
volta à estaca zero. Até ir ao supermercado era complicado no início,
mas tive a sorte de morar com polonesas que conseguiam entender alguma
coisa do sérvio e me ajudavam.
O projeto não foi exatamente como eu esperava, mas considerando as
possibilidades que apareceram quando eu estava lá, acho que consegui
tirar o máximo de proveito e aprender muito com meus companheiros de
time. Passei por muitas situações inusitadas que só me fizeram
crescer; as diferenças culturais tendo que ser administradas na
convivência diária, os hábitos, o chuveiro que era só um chuveirinho
(!), o frio de -20°.. Mas cada momento lá valeu a pena, e agora,
apenas um mês e pouco depois de ter voltado, já lembro de tudo com
muita saudade. É clichê quem faz um intercâmbio dizer, na volta, que
não é mais a mesma pessoa; mas é inevitável!
Recomendo a todos que me perguntam que visitem e conheçam mais da cultura, não apenas da
Sérvia, mas também da Bósnia, Hungria (lugares que tive a oportunidade
de conhecer nas folgas do projeto e que me encantaram) e de todo o
leste europeu. É preciso estar preparado, literalmente, para um mundo
novo quando embarcamos nessas aventuras, e esse mundo acaba dando
sempre seu toque à nossa formação.



