quinta-feira, 26 de abril de 2012

Patrícia na Sérvia


Србија

Um frio percorreu minha espinha quando olhei pela janela do avião que
pousava em Belgrado no dia 6 de fevereiro de 2012: o branco da neve
cobria tudo, apenas a pista do aeroporto dava uma cor diferente ao
cenário. Chegar sozinha à capital da Sérvia em um dos dias mais frios
do ano (e dos últimos anos), sem saber o que esperar daquele lugar e
daquelas seis semanas que viriam pela frente foi certamente uma das
sensações mais impactantes da minha vida.




Logo ao desembarcar, um conforto para o meu coração angustiado:
recepção calorosa, com direito a bandeirinhas com meu nome! Ao
conhecer as pessoas que tinham ido me buscar, percebi com grande
alegria que os sérvios podiam ser muito mais parecidos conosco do que
eu jamais havia imaginado! Pessoas abertas, falantes, alto-astral,
compreensivas com atrasos, animadas e prestativas.

Fui levada para o apartamento que dividiria com outros intercambistas
onde, já no primeiro dia conheci uma menina polonesa que dividiu o
quarto comigo durante todo o tempo e se tornou um super companheira e
amiga com quem mantenho contato. Ao longo das semanas, outras pessoas
chegavam e iam embora, mas sempre estávamos em 4 ou 5, então a
diversidade cultural era mantida o tempo todo; posso dizer que morar
com esses outros estudantes foi uma das melhores coisas da viagem,
pois conheci várias culturas além da sérvia e fiz amigos de muitos
lugares.



Nas duas primeiras semanas pude ver muito pouco da cidade, pois a neve
cobria tudo e dificultava qualquer passeio. Escolas e faculdades
fecharam, o que também adiou o início do projeto. Quando decidi que
queria viajar (em dezembro) não tinha muita idéia do destino e nem de
que tipo de trabalho gostaria de fazer. Só sabia que queria muito
conhecer pessoas/lugares/culturas novas e fazer isso da melhor forma,
contribuindo de alguma maneira, fazendo alguma diferença, por menor
que fosse. Minha busca pela vaga tinha que ser rápida porque queria
embarcar logo para não perder muita aula depois, na volta. Então,
quando encontrei um projeto sobre sustentabilidade e ecologia, área
que sempre me interessou e na qual eu via grande potencial, em
Belgrado, cidade que transborda história - estudo Relações
Internacionais e nem preciso dizer o quanto isso me atrai - pensei: é
esse e vou arrumar minhas malas! Malas prontas e tudo arrumado
(incluindo visto! Quem pretende ir deve fazer isso com antecedência
pra não surtar como eu) com muita correria, em menos de duas semanas,
e lá estava eu.


                     

Quando a neve finalmente deu uma trégua, comecei a conhecer Belgrado.
O lugar que mais me encantou foi Kalamegdan, um enorme parque cercado
pela fortaleza construída há mais de mil anos, onde tem também um zoo
muito bonitinho que vale a pena ser visto. A catedral de Saint Sava é
uma construção mais moderna, de poucos anos atrás, mas é parada
obrigatória. Seu interior ainda está em construção, mas a arquitetura
imponente encanta a todos. Belgrado é uma cidade que ainda está em
desenvolvimento, longe do padrão europeu que conhecemos, mas com
transporte público eficiente e segurança (pegava ônibus com muita
tranquilidade para voltar das festas). Por falar em festas, é a cidade
ideal pra quem gosta da vida noturna, há opções para todos os gostos e
clubes muito charmosos em barcos às margens dos rios Sava e Danúbio,
além de não precisar pagar entrada na maioria deles.

                                

Quanto à comida, não tive nenhuma dificuldade para me adaptar pois
eles não comem nada que seja muito excêntrico para nós, e achei tudo
muito delicioso. As padarias merecem destaque, pois são ótimas e muito
baratas! Quem for não pode deixar de experimentar o Burek, uma espécie
de pastel geralmente recheado com carne ou queijo e de sabor
excelente! Outra coisa que não pode passar batida é a Rakija, bebida
típica da Sérvia e outros países balcânicos. Pode ser feita a partir
de várias frutas, como uva, maçã, pera, entre outras tantas, e até de
nozes, mas o gosto é sempre bem forte (e o teor alcoólico bem alto!).
Na sessão dos não-alcoólicos, o Plazma shake é uma ótima opção.

                           

O povo, como já disse aí em cima, tem um jeito que pode lembrar muito
o brasileiro. Em geral as pessoas são bem informais e sempre que
precisei obtive ajuda prontamente. Uma coisa que me chamou a atenção
foi o orgulho com que falam de sua cultura e cantam e dançam suas
canções tradicionais sem vergonha alguma em restaurantes e pubs. Para
meu alívio e surpresa, muita gente (mesmo) fala inglês, especialmente
os jovens, quase todos com quem tentei me comunicar! E isso é
fundamental porque a língua sérvia é da "família" do russo, ou seja,
incompreensível. Além disso, eles usam dois tipos de alfabeto, o
cirílico e o russo, o que dificulta muito pra quem aprende a
identificar uma palavra num alfabeto e aí ve ela escrita no outro -
volta à estaca zero. Até ir ao supermercado era complicado no início,
mas tive a sorte de morar com polonesas que conseguiam entender alguma
coisa do sérvio e me ajudavam.



                            

O projeto não foi exatamente como eu esperava, mas considerando as
possibilidades que apareceram quando eu estava lá, acho que consegui
tirar o máximo de proveito e aprender muito com meus companheiros de
time. Passei por muitas situações inusitadas que só me fizeram
crescer; as diferenças culturais tendo que ser administradas na
convivência diária, os hábitos, o chuveiro que era só um chuveirinho
(!), o frio de -20°.. Mas cada momento lá valeu a pena, e agora,
apenas um mês e pouco depois de ter voltado, já lembro de tudo com
muita saudade. É clichê quem faz um intercâmbio dizer, na volta, que
não é mais a mesma pessoa; mas é inevitável! 



                           


 Recomendo a todos que me perguntam que visitem e conheçam mais da cultura, não apenas da
Sérvia, mas também da Bósnia, Hungria (lugares que tive a oportunidade
de conhecer nas folgas do projeto e que me encantaram) e de todo o
leste europeu. É preciso estar preparado, literalmente, para um mundo
novo quando embarcamos nessas aventuras, e esse mundo acaba dando
sempre seu toque à nossa formação.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Carol na Índia



Sempre quando se decide fazer uma viagem – e principalmente um intercâmbio -, o assunto vira pauta familiar, do trabalho, da faculdade e qualquer outro círculo de pessoas do qual o viajante participa. E coisa boa nunca vem, né?! No meu caso, vir pra Índia era sinônimo automático de doença, pobreza, assalto, preconceito e qualquer coisa parecida.

                                     

Mas, nada melhor do que ver e viver pra saber se é ou não verdade. Então vamos lá, compartilhar o que eu já confirmei (ou não) desde que cheguei

1. “O trânsito é uma loucura”: claro que depende muito da cidade/bairro/horário. Mas de maneira geral, é um caos. Um caos completo. Não que mude muito em termos de tráfego de grandes cidades brasileiras, mas o maior problema é o barulho e a desordem. Eles buzinam, buzinam, andam na contramão, se batem, enfim. Eu ainda acho que tenho uma chance enorme de ficar surda ou morrer atropelada. Já falei em outro post, mas sinaleiras e faixas de segurança inexistem. Agora imagina isso numa cidade com 7mi de pessoas. E sim, também tem vacas. E rickshaws. E pessoas.


                                         


2. “Os indianos comem com as mãos”: nas casas e em locais típicos realmente se come com as mãos e não é necessariamente nojeeento. Em escolas ou comunidades mais tradicionais, a comida é servida numa folha de bananeira. Ainda assim, em restaurantes existem talheres, mas dificilmente facas. Como eles não comem carne, nem tem muito o que cortar.

3. Homens e mulheres: é bastante evidente a “superioridade” masculina na sociedade como um todo. Homens se abraçam o tempo todo, trocam carinhos, dão as mãos, etc. E isso não acontece com as mulheres. Elas andam de lado na moto, se seguram na moto e não encostam nos homens. Não há qualquer tipo de demonstração de afeto em público entre homem e mulher ou mesmo entre mulheres.


4. “E tudo uma sujeira”: é realmente bastante sujo. Tem lixo pra todo lado e pra eles o conceito de limpeza é, com certeza, muito diferente do nosso. Minha mãe ia infartar se andasse ou tivesse que comer por aqui. Os copos vem sempre sujos, mesmo em redes como Pizza Hut, onde tudo é bem mais limpo. E o engraçado é que eles convivem com a sujeira como se nada fosse. As vacas – leia-se sagradas – comem e vivem dentro do lixo. Já que é sagrada, podia ser tratada melhor, né?!

5. “É um país perigoso”: eu não senti medo nenhuma vez aqui, mesmo de noite. Claro que andar sozinha de rickshaw, por exemplo, é um pouco assustador, mas de uma maneira geral não traz uma sensação de insegurança como a que a gente tem no Brasil. Os indianos mesmo dizem que aqui eles tem muito mais medo de grandes ataques terroristas do que questões cotidianas, como assalto ou sequestro. Além do que, tem tanta gente por todos os lados que qualquer coisa é só gritar.

                                            

6. “A comida é muito apimentada”: fato, fato, fato. TUDO, veja bem, TUDO, tem curry, pimenta, açafrão, cominho e todas as milhares de especiarias que um ser humano pode imaginar. Eu, que adoro pimenta, quase não consigo comer, pq é realmente muito forte. E é engraçado, pq eles comem tanto isso que as pessoas cheiram a temperos. É bom que aí não vem mosquito  Existe a opção de pedir com menos pimenta, mas eles nunca obedecem. Aí ontem encontramos uma tática:

-”Sir, is it spicy?”

-”No, mam”

-”Are you sure? I’m alergic”

-”Don’t you like pepper, mam”

-”I do Sir, but I can die if I eat”

-”Hmmm.”

7. “Indianos não comem carne”: realmente muitas pessoas são vegetarianas. Carne vermelha (de búfalo) só no Hard Rock. Eles comem muito frango (com curry) e em todos os restaurantes existem opções Veg e Non-Veg. Além disso, todo e qualquer produto é identificado: bolinha verde pra Veg e bolinha vermelha pra Non-Veg (até chiclete e Pringles tem!).

8. “A água é suja”: comprar água mineral aqui é MUITO barato, então não vale a pena arriscar. Pode-se comprar uma garrafa de 1L por 15 rúpias (50 centavos, mais ou menos) e refrigerante também é barato. Os locais tomam, mas as águas que eles servem de jarra é sempre meio turva e nunca se sabe de onde vem.

9. “A família é muito valorizada”: sim, sim. E isso é lindo. Todas as vezes que eu converso com qualquer indiano – principalmente crianças – eles perguntam o meu nome, o nome do meu pai, da minha mãe e se eu tenho irmãos. Se sim, querem saber o nome. Perguntam como eles são, se estão aqui comigo, o que fazem. Coisa mais fofinha.

10. “Indianos não se divertem”: que nada! Tem um monte de festa por aqui, até pq tem muito estrangeiro. A única diferença é que elas acabam por volta das 23h. Eles simplesmente acendem as luzes e colocam todo mundo pra fora.  A festa do ano-novo acabou 00h30, pra ter uma ideia. Além disso, em festas é possível ver várias indianas com as pernocas de fora, apesar de não ser muito culturalmente aceitável.





Mas essas são somente as minhas visões. Nada é comprovado cientificamente

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Καλώς ήλθατε στην Ελλάδα (Bem-vindos à Grécia)

Hoje vamos falar sobre a Ilha de Quios, na Grécia. A ilha, situada no mar de Egeu, fica bastante próxima da Turquia e tem em torno de 52.000 habitantes. Era de lá que a estudante de Jornalismo da UFRGS Ana Elizabeth Soares voltava há exatamente um ano, depois de dois meses fazendo trabalho voluntário.  Ana Elizabeth conta para o Blog da AIESEC as mudanças que o intercâmbio trouxe pra ela e dá dicas de viagem para quem pretende explorar a região.

Natural de Bagé (RS) e apaixonada por culturas, gastronomia e história, Ana Elizabeth não poderia ter escolhido um destino mais acertado para viver seu intercâmbio do que a Grécia. A gaúcha de 22 anos trabalhou em um projeto chamado School P. Box. Nele, junto com outros três jovens do Panamá, Romênia e República Tcheca, ela lecionou aulas e pequenas palestras sobre diversidade cultural, sustentabilidade e liderança jovem para estudantes de escolas públicas em diversos povoados da ilha. O projeto nasceu na entidade da AIESEC na Ilha de Chios e acabou ganhando proporção nacional, sendo repetido em diversas cidades da Grécia. Para Ana Elizabeth, que sempre teve vergonha de falar em público, o projeto foi uma chance única. “De repente, me vi na frente de uma turma inteira de pré-adolescentes tendo que tentar passar algum conhecimento em outra língua, o inglês. E o que acabou acontecendo foi uma troca incrível de histórias, culturas e muito conhecimento”, afirma.


                           Ana entre outros intercâmbistas da AIESEC na Grécia
O tempo de Ana na Grécia também foi marcado pela situação econômica instável no país. A estudante de Jornalismo diz não ter sentido o abalo na economia dentro da Ilha em que morou, mas presenciou manifestações, tanto da crise quanto da população, na capital do país. “Dava pra ver que o preço das coisas era bem menor comparado ao padrão europeu. Vi várias manifestações na Praça Syntagma, em Atenas, mas tudo muito pacífico”, conta. Para ela, a maioria das imagens transmitidas pela TV representa apenas uma parte do que realmente acontece no país.  A gaúcha também conta que, mesmo em crise, o país se mantinha organizado. “Existe até um site que informa os dias e horários que o transporte público vai parar”, relembra.“Os jovens gregos também sempre me pareceram bem interessados e ativos em relação à situação toda. Sempre me perguntavam como o Brasil passou de devedor do FMI a uma das maiores economias do mundo”, acrescenta.
O intercâmbio para Ana não foi só uma oportunidade de conhecer outro país em meio a uma crise econômica, mas a chance de conhecer melhor e participar mais ativamente da AIESEC. “Tudo que eu aprendi lá, tanto da AIESEC como da vida, eu vou levar para sempre junto comigo”, conta a estudante, que afirma ter voltado uma pessoa melhor, encarando todas as circunstâncias da vida como oportunidades de aprendizado e crescimento.

                                               Ana com seus alunos
Um ano depois de voltar da Ilha de Chios, Ana Elizabeth sabe que não foi só o projeto ou o país que impactou a sua experiência por lá. Para Ana Elizabeth, o que mais marcou seu tempo na Grécia foram as pessoas.  “Cada segundo vivido lá. Cada pessoa que conheci. Cada lugar que eu passei. Cada amizade que eu fiz. Cada coisa que aprendi. Mesmo um ano depois, as lembranças estão mais vivas do que nunca”, afirma.
Pensando em ir para a Grécia? Confira as dicas da Ana Elizabeth sobre o país e sobre a Ilha de Chios.
Cidade/País: Ilha de Chios – Grécia
Moeda: Euro
Língua: Grego
Quando você foi: Janeiro a Março de 2011
Lugar preferido: São vários! O país inteiro é muito especial, a cultura rica demais. Mas sem poder sair do clichê preciso citar a Acrópolis e o centro histórico de Atenas. Sou apaixonada por história e aquele lugar é mágico demais.
Parada obrigatória: Em Chios, as praias, o porto, o farol, os cafés, o castelo…
Uma curiosidade: Nunca imaginei que a cultura grega fosse tão próxima da turca. Fiquei numa ilha que já pertenceu à Turquia durante muito tempo e as similaridades nas comidas, costumes e cultura em geral são imensas.
Um choque cultural: Os gestos! Aqui a gente balança a cabeça de um jeito pra dizer não, lá é de outro bem diferente. Várias vezes achei que as pessoas estavam concordando comigo quando na realidade estavam dizendo não!
Uma similaridade inesperada: As pessoas, o calor humano! Os gregos são um povo muito legal, querido, atencioso e educado! Sem contar que adoram fazer uma festa!
Dicas importantes: Tire proveito das diferenças e das dificuldades. Use cada momento para aprender um pouco mais, não se abale com pouca coisa e viva cada segundo intensamente!
Um prato: Souvlaki! Simplesmente a melhor comida grega. É o churrasquinho grego (aquele que gira) de porco com batata frita, cebola roxa, tomate, tzatziki (molho a base de iogurte com pepino e hortelã) enrolado num pão pita (tipo árabe). No mais, todas as comidas que provei, doces e salgadas, são maravilhosas.
Uma bebida: Ouzo, bebida típica grega. Ela tem sabor de anis e fica com aspeto leitoso quando a gente coloca gelo. Tinha também um vinho quente com mel que parecia o quentão brasileiro e era delicioso.
O melhor: As pessoas, os lugares, a cultura.
O pior: Às vezes não tinha água quente nos dormitórios da universidade! Apesar de crise ou de qualquer outra coisa, não vejo pontos negativos na Grécia.
Uma pessoa que vai pra Grécia tem que estar preparada para… Tomar um banho de história, de cultura, de lugares lindos, de pessoas incríveis.
Não pode faltar na mala: Energia, curiosidade, vontade, cabeça e coração abertos.