sábado, 31 de março de 2012
व्यक्ति पर एंजेला
quinta-feira, 22 de março de 2012
Gil na Colômbia!
quinta-feira, 15 de março de 2012
Luisa na Noruega.
Em janeiro e fevereiro de 2012, fui pra Noruega fazer trabalho voluntário. O time (de seis pessoas) ia a escolas dar workshops pra crianças e adolescentes sobre direitos humanos, multiculturalidade, tolerância, nossas próprias culturas. Uma coisa meio EduAction. Volta e meia, promovíamos atividades extracurriculares, tipo aulas de culinária.
Pra minha idade, eu achava que tinha feito bastante coisa. Tenho 20-pra-21 anos, trabalho como colunista da página final da revista Capricho (não, não é sobre Justin Bieber) e tô “en train de” publicação do meu segundo livro. Estudo Relações Internacionais e Ciências Sociais. Na Noruega (o IDH mais alto do mundo), num time de seis pessoas, uns workshops com umas crianças, seis semanas, todo mundo fala inglês. Pelamordedeus, quão difícil podia ser?
Foram seis semanas que inverteram tudo que eu sabia. Como trabalhávamos em dois times de três, o meu time tinha uma pessoa de cada continente. Quando fazíamos o planejamento, era engraçado como cada um tinha um conceito completamente invertido do que uma aula deveria ser, como ela poderia ser divertida, como um professor deve se comportar, quanto os alunos deviam falar. Eu me lembro de uma vez em que o chinês estava “hosting” um jogo com as crianças e, como eu só estava assistindo, me sentei no chão pra assistir. A russa correu em minha direção com os olhos arregalados perguntando se eu tava bem. Ué, claro que sim. Foi aí que eu ouvi: mas um professor sentar no chão…? Onde já se viu? Eu nem me considerava professora daquelas crianças e menos ainda achava um problema me sentar no chão.
Acho que o que mais aprendi foi a ouvir os sinais dos outros. Demorei uma semana pra perceber que a taiwanesa, minha colega de quarto, não entendia o que eu (ou um dos nossos hosts canadense) falava. Sempre achei muito normal isso de “se colocar na posição do outro” e blablabla, mas não é simples assim. Eu não posso simplesmente dizer “e se eu fosse uma taiwanesa de 18 anos de idade, como eu lidaria?”. Eu ia preencher os buracos que não vivi com coisas brasileiras. Pra brasileiros, é normal começar a gesticular e se meter na conversa sem entender. É meio arrogante “se colocar no lugar do outro”. Custei essa uma semana pra perceber que quando tinha um diálogo se desenvolvendo em inglês, a taiwanesa não ficava quieta por timidez. Ela não sabia do que estava sendo falado. Às vezes, perguntavam A, ela respondia sobre Y. Aliás, pra começo de conversa, ela tava lidando com um idioma do outro lado do mundo. Foi aí que eu comecei a parar de corrigi-la mentalmente sempre que ela dizia “close/open the light” (fechar/abrir a luz (pra apagar e acender), que em mandarim faz todo o sentido). Uma observação engraçada: eu mal tentei falar frases simples em mandarim porque sabia que estaria pronunciando muito errado.
A cidade onde eu fiquei é a maior cidade universitária da Noruega, ou seja, intercambistas não faltaram. Festas não faltaram. Gente se interessando e dando as dicas do que fazer e onde, sempre tive. Eu, a russa e a taiwanesa uma vez resolvemos fazer uma “girls night”. Foi exatamente igual às girls nights que eu tenho com as minhas amigas porto-alegrenses. Chocolate, sorvete, esmalte de unha, fofoca, comédias românticas, vodca (eu podia falar essa, mãe?) e por aí vai. Uma piadinha interna de nós três era sobre como barreiras culturais eram só uma brincadeira de mau-gosto. Hoje, nem acho que seja tanto uma brincadeira. As pessoas confundem “cultura” com “pessoa”. Todo mundo achava que eu ia passar trabalho com amizades. “Os noruegueses são muito frios”, eu ouvia. Mas passei mais trabalho me despedindo de tanta gente que eu sabia que não ia ver tão cedo.
Um time de seis pessoas do mundo inteiro, e eu sendo a única latina, não é exatamente fácil. Nem tudo foi margaridas douradas do campo, óbvio. Como falei, não dá nem pra culpar a nacionalidade de ninguém. É uma questão de lidar com pessoas. Aprendi muito nesse sentido e, sobre comunicação, então, nem se fala. Alguns chegavam duas, três horas atrasados e insistiam: they didn’t do anything wrong. E haja comunicação pra provar por A+B que o time inteiro pensa diferente. O time inteiro de pessoas, não nacionalidades. Mas dá pra resolver. Teve dois ou três momentos nos quais tudo que eu quis fazer foi sentar e chorar. Uma menina que coordenava o projeto chegou a se demitir por causa de um dos intercambistas.
Mas perdi a conta da quantidade de vezes que eu chorei de rir. Chorar de rir mesmo, de fazer o olho arder e tudo. Mergulhei no oceano gelado (minha casa era do ladinho da costa) e não morri no choque térmico; comi o melhor chocolate do mundo (dane-se a Suíça); provei culinária de umas nove nações; caí na neve quase todos os dias (e achei muito engraçado); provei presunto de rena e linguiça de cavalo; aprendi a diferença entre alce, rena e veado; vi um alce no meio do trânsito; dormi em aeroporto e em trem; falei de brazilian wax tantas vezes; achei neve muito linda e muito deprimente; arranjei onde ficar em uns trinta países; conheci um país com um jeito de funcionar todo diferente; ganhei abraços de gente que odeia contato físico; tive que imitar posições do kama sutra numa festa de aniversário; me peguei falando “ah, hoje nem tá tão frio, tá só zero grau”; fui a um carnaval gay pra ver as peruas escandinavas cheias do glitter; ganhei tantas histórias pra contar que nem preciso mais inventar na hora de escrever; senti saudades do sol e da fadinha que leva a minha roupa suja do banheiro. Acabei team leader da coisa toda e resolvi problemas que eu não sonhava ter. E me senti bem por isso. Eu não sabia que eu conseguia lidar com certas situações, com um time com motivações absurdamente diferentes. Experimentei um país e me experimentei ao mesmo tempo.
Eu me lembro que na minha entrevista, perguntaram por que eu queria estar naquele projeto. Usei muito a palavra “contribuir”. Queria contribuir. E, por mais que tivesse problemas no time, entregamos um maravilhoso projeto. Contribuí sim. Nós pedíamos às crianças feedback sobre os workshops, em post its, anônimos e tal. Li tantos (mas tantos) elogios, perguntas se a gente iria voltar, pedidos de “me adiciona no Facebook”, algumas crianças escreviam cartas enormes em norueguês (porque tinham dificuldade com inglês). Vi meus colegas de time se desenvolverem. O garoto chinês, nas primeiras semanas, mal conseguia dar ideias, aceitava tudo que eu dizia e mal conversava. Pela terceira semana, já dava pra ver a diferença; nele, nos meus colegas de time. E você vê que a diferença não foi só nas crianças, mas em tudo.
Eu não queria voltar pra Porto Alegre porque sabia que a Porto Alegre que eu ia encontrar não era a mesma que eu deixei. Não faria nada diferente nessas seis semanas. Se fosse, seria chegar antes.










